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Cenários e rotinas

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E a vida corre tranquilamente. Nas sextas e sábados deste fevereiro, a galera do pré-carnaval bota o bloco na rua, aquece os tamborins e invade a noite do Benfica. Animados pela prévia de quatro exaustivos dias de folia, os brincantes se lançam ao som das marchinhas e ao grito do puxador do bloco. Enquanto isso, na TV, as notícias sobre a calamidade do povo haitiano dividem espaço com as chamadas do reality show que anuncia, “agora o prêmio é de um milhão e meio de reais”, disputado a barracos e xingamentos, ao vivo e em cores. Mas ainda mais perto, da minha janela, posso ver um homem revirando o lixo do prédio e catando o alimento desperdiçado: por mim, pelos meus vizinhos e talvez até mesmo por você, caro leitor, que tantas vezes “enfadado” do mesmo cardápio, contribui com a miséria num país cheio de ricos e famintos. O movimento na rua continua, enquanto uns correm apressados para a aula, outros mal disfarçam a pedra enrolada num pequeno papel branco, crianças subnutridas vagam pel...

Humanos: graças a Deus

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Uma caminhada no fim de uma tarde de terça me faz experimentar algo, que eu diria muito interessante. Estou eu a caminhar por entre os apressados atletas de praça, na Gentilândia, quando meus pensamentos começam a girar em torno de meus conflitos internos. Inicialmente, penso na técnica do foco, então miro o último ponto da reta de onde caminho e sigo até ele, com passos cada vez mais apressados, mas meu irrelevante-preparo-físico logo me faz reduzir os passos e arejar apenas a mente, já que o corpo é apenas o suporte dela. Então, reduzo a caminhada e me deixo levar pelos meus pensamentos. Aos poucos, contorno a praça, refaço todos os passos anteriores e numa dessas voltas, um rapaz de estilo hippie chama a atenção para a palavra que está escrita em minha camiseta: SABEDORIA. - Legal, esse curso que você faz, né! - Ah, não é curso, é um pedido. Continuo a caminhar e na volta seguinte, novamente o rapaz me aborda, dessa vez me pede para mostrar sua arte. Paro um ...

Dia da Mulher - Parabéns a todas as mulheres!

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Era uma vez uma princesa linda, elegante, inteligente, independente, moderna: seu maior sonho era morar num castelo luxuosa onde o chuveiro fosse elétrico, existisse microondas para preparar a comida quando chegasse cansada do trabalho, um quarto confortável, cama espaçosa e ar condicionado, cafeteira para providenciar seu café da manhã sem se atrasar para o trabalho. Ah, uma bela carruagem, último modelo da Chevrolet, sem cocheiro para estender a mão quando descesse ou subisse no possante. Que baile, que nada, uma princesa nos tempos da balada, arrasa em qualquer pista de dança, sozinha, sem precisar de um cavalheiro que a conduza pelo salão. Empregados, súditos, lacaios nenhum, a não ser a faxineira que vem uma vez no mês para aquela limpeza geral. Os tempos estão difíceis, ela mesma vai ao supermercado, lava a louça e as roupas tudo naquela moderníssima máquina de lavar, último lançamento. Príncipe?! Não, ficante. Alguém que conheceu naquela festa.... Cujo telefone deve...

Contextos

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Saudades de um tempo Vontade de brisa Desejo de abraço Sonho sem travesseiro Saudades de atravessar a rua sem olhar para o lado de atravessar a vida sem olhar para trás Saudades de hoje e de um tempo sem relógio Uma lua sem prédios um afago sem medo um letra sem reforma um desenho sem forma e uma gente humana Saudade de um tempo em que crianças corriam... na rua, na calçada e não corriam riscos de uma juventude sem pedra de um governo sem burocracia e de uma terra de paz Saudade de ser grande de ter pouco para fazer para dizer para assumir Saudade de amanhã de um planeta em harmonia de uma gente que protegia de uma gente que não destruia o sonho, a mata, a Terra Saudades de existir sem contexto saudades de um tempo que ainda não passou e de um tempo que não sei se virá. Humildemente, esta autora.

Coisas imprescindíveis

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Precisamos de poucas coisas para viver mas insistimos em correr cada risco pela grandiosa vontade de alimentarmos o nosso insaciável instinto consumista. Só realmente algumas coisas são importantes e eu as considero, de verdade, práticas imprescindíveis para se viver bem. Contemplar o nascer e pôr-do-sol. Contemplar estrelas e desconhecer o nome das constelações. Conhecer pelo menos um lugar muito diferente do seu. Tomar sorvete com os amigos. Ler o Pequeno Príncipe e grifar as partes mais importantes. Deixar-se fotografar com os cabelos desfeitos. Deixar de tomar refrigerante. Ligar para os antigos amigos numa tarde de segunda-feira. Ouvir atentamente os mais experientes. Ouvir o que dizem as crianças sobre a ir à Lua. Curtir a ocasião ao invés de idealizar. Agendar uma caminhada pelo fim de tarde como um compromisso importantíssimo. E... caminhar. Desenhar sem medo. Procurar a lua no céu. Agradecer a oportunidade de ter uma janela. Abrir novas portas. Escrever bi...

Do jeito de encarar o rio

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Essa força estranha que nos move. Essa força estranha que move as pessoas, as montanhas, as águas. Estamos prestes a atravessar mais uma correnteza e eis que à beira da estrada nos juntamos aos muitos que, ainda não conhecem o agitar das águas, mas aguardam com ansiedade o momento de encará-las. Nosso jeito bravo de dar ao mão ao outro e segurar firme, quando duvidoso ele parece cair na correnteza, é que nos torna especialmente humanos. Humanos de um jeito latente de ser humano, de uma forma múltipla. Não apenas o meu ou o seu interesse, mas o nosso. Em alguns momentos e por sermos muitos nos dispersamos com a paisagem ao nosso redor, mas o ardor de servir nos chama de volta e nos leva ao caminho. Tantas vezes, na tensa travessia contamos com mãos e braços fortes que nos encorajam a chegar do outro lado. E tal qual, na natureza, em nossa vida também há a outra margem e é quando percebemos que o rio era apenas o meio para chegar. Do outro lado, há tantas outras vidas à espera ...

Espelho

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Existe uma música que diz: “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”... para as mulheres particularmente, isso ocorre com muita frequência. De vez em quando, encaramos o espelho e nos invade uma sensação estranha de que há algo errado conosco. “Acho que engordei.” “Ih, mais uma ruga”. “Nossa, ela tinha razão, estou muita magra”. Parece que do outro lado do espelho mora alguém igualzinho a nós, disposto a nos destruir. Às vezes, dizem absurdos que nos fazem chorar ali mesmo, feito bezerros desmamados. E como a pessoa que mora no espelho tem a nossa cara, tendemos a acreditar nela e a deixamos fazer um enorme estrago em nossa vida. Mas fala a verdade, que mulher nunca parou em frente ao espelho numa manhã de sábado sem nada para fazer e se achou dez anos mais velha ou dois quilos mais gorda?! Que mulher já não experimentou cinco blusas, quatro calças somente para ir ao trabalho numa manhã de segunda-feira? Que mulher nunca perdeu o horário por causa da maquiagem...