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As Rosângelas de Fortaleza

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         Hoje conheci alguém que me fez pensar um pouco na realidade miserável urbana. Ao pegar o ônibus de volta do Centro, sentei ao lado de uma garotinha que aparentava uns 12 anos de idade e aos poucos fui puxando conversa com ela.          A garota havia ido ao Centro com o pai e a irmã que parecia ter de um a dois anos a mais que ela. Ambas vestiam roupas sujas e o cansaço por mais um dia de trabalho era visível em seus rostos.          Perguntei se ela estudava e ela me disse que havia parado na quinta série, que tinha dez irmãos e que somente ela, a irmã e o pai trabalhavam. Todas estas informações obtive perguntando, por que em nenhum momento a garota tomou a iniciativa da conversa.          Me disse ainda que se chamava Rosângela e que vinha para o trabalho todos os dias. Não pude deixar de, olhando aquele rosti...

Ora chuvas!

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Que intensa chuva sobre a rua E de cá, da janela atenta de meu olhar Observo absortamente a chuva Chover, cá no meu modo de ver Não é lá mistério profundo É a indefinição extraordinária do mundo Mais incrível do que chover É ver a chuva sem se molhar Ou deixar-se encharcar Riscos e rabiscos passageiros, ou nem tanto Chuva, chuvisco, “chuvueiro” (como diz minha mãe) Só ao entregar-se aos pingos é que descubro Melhor que contemplar a chuva é tornar-se chuva E deixar-se molhar Não o corpo Mas a alma, A essência.

A novidade

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Não demorou muito e toda a pequena cidade já sabia. Sabe como é, né: cadeiras na calçada, começo de noite, vizinhas conversando e “haja” novidade. Naquela manhã haviam noticiado no rádio o principal evento do dia, carros e bicicletas de som circularam pelas ruas e os comentários logo tornaram-se pauta do dia no mercado.   No colégio, os alunos em algazarra comemoravam a novidade e animados, disputavam entre si quem seria o primeiro a experimentar.   Na fila do Correio, os aposentados não falavam em outra coisa.   - Minha neta que viu, diz ela que é um negócio de outro mundo.   Aos poucos os “bodegueiros” tomavam parte do principal assunto da cidade.   - Dizem até que a gente pode comprar por ela. - Daqui a pouco até eu, vou querer adquirir.   - É, cumpade, esse mundo ta mesmo mudado.   A empresa responsável por trazer a novidade chegou mesmo a produzir um vídeo para um comercial na tevê onde aparecia um menino montado num jegue e o narrador começav...

Licença para Lispector

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"Eu não escrevo o que quero, escrevo o que sou." Clarice Lispector Por não estarem distraídos Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando ...

Cenários e rotinas

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E a vida corre tranquilamente. Nas sextas e sábados deste fevereiro, a galera do pré-carnaval bota o bloco na rua, aquece os tamborins e invade a noite do Benfica. Animados pela prévia de quatro exaustivos dias de folia, os brincantes se lançam ao som das marchinhas e ao grito do puxador do bloco. Enquanto isso, na TV, as notícias sobre a calamidade do povo haitiano dividem espaço com as chamadas do reality show que anuncia, “agora o prêmio é de um milhão e meio de reais”, disputado a barracos e xingamentos, ao vivo e em cores. Mas ainda mais perto, da minha janela, posso ver um homem revirando o lixo do prédio e catando o alimento desperdiçado: por mim, pelos meus vizinhos e talvez até mesmo por você, caro leitor, que tantas vezes “enfadado” do mesmo cardápio, contribui com a miséria num país cheio de ricos e famintos. O movimento na rua continua, enquanto uns correm apressados para a aula, outros mal disfarçam a pedra enrolada num pequeno papel branco, crianças subnutridas vagam pel...

Humanos: graças a Deus

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Uma caminhada no fim de uma tarde de terça me faz experimentar algo, que eu diria muito interessante. Estou eu a caminhar por entre os apressados atletas de praça, na Gentilândia, quando meus pensamentos começam a girar em torno de meus conflitos internos. Inicialmente, penso na técnica do foco, então miro o último ponto da reta de onde caminho e sigo até ele, com passos cada vez mais apressados, mas meu irrelevante-preparo-físico logo me faz reduzir os passos e arejar apenas a mente, já que o corpo é apenas o suporte dela. Então, reduzo a caminhada e me deixo levar pelos meus pensamentos. Aos poucos, contorno a praça, refaço todos os passos anteriores e numa dessas voltas, um rapaz de estilo hippie chama a atenção para a palavra que está escrita em minha camiseta: SABEDORIA. - Legal, esse curso que você faz, né! - Ah, não é curso, é um pedido. Continuo a caminhar e na volta seguinte, novamente o rapaz me aborda, dessa vez me pede para mostrar sua arte. Paro um ...

Dia da Mulher - Parabéns a todas as mulheres!

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Era uma vez uma princesa linda, elegante, inteligente, independente, moderna: seu maior sonho era morar num castelo luxuosa onde o chuveiro fosse elétrico, existisse microondas para preparar a comida quando chegasse cansada do trabalho, um quarto confortável, cama espaçosa e ar condicionado, cafeteira para providenciar seu café da manhã sem se atrasar para o trabalho. Ah, uma bela carruagem, último modelo da Chevrolet, sem cocheiro para estender a mão quando descesse ou subisse no possante. Que baile, que nada, uma princesa nos tempos da balada, arrasa em qualquer pista de dança, sozinha, sem precisar de um cavalheiro que a conduza pelo salão. Empregados, súditos, lacaios nenhum, a não ser a faxineira que vem uma vez no mês para aquela limpeza geral. Os tempos estão difíceis, ela mesma vai ao supermercado, lava a louça e as roupas tudo naquela moderníssima máquina de lavar, último lançamento. Príncipe?! Não, ficante. Alguém que conheceu naquela festa.... Cujo telefone deve...